segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

ah, o amor...


andando com as mãos no bolso, ele procurava algum objeto que o distraísse. não queria mais olhar para frente, ver tantas pessoas envolvidas nelas mesmas. não queria mais olhar para o chão pisado por pés emaranhados em fios de cabelo e pétalas de flor pisadas pela pressa da cidade. também não queria um parque tranqüilo, calmo e colorido, onde os pássaros fizessem seus ninhos e dessem minhocas aos pequenos passarinhos. nem caos nem construção. o pseudo-amor está por todas as partes, nos cantos mais expostos e nos mais sórdidos. só de pensar, um menino beija o chão e uma abelha beija uma flor, lambuzando-se com o pólen. a vênus se expondo ao mundo, suas curvas e seu triângulo, o encaixe perfeito e o olhar atento e sedutor... a cada passo, a imagem que vinha do cérebro nem se formava no olho, mas justamente o contrário: a luz entrava pelo globo e se via dentro de uma massa cinza uma imagem real. ou seria pré-produzida?
os corpos esbeltos e curvados, erguendo-se e sucumbindo aos que clamam pelo prazer de alimentar-se fisicamente daquilo que a fruta madura primordialmente ofereceu sem nem mesmo querer. com medo de cair, ela se ofereceu à primeira mão, questão de morte-beleza: podre e amassada ou intacta corroção liquefeita de ácido? não há dúvidas quanto ao live fast, die young. a vida é rápida demais para se perder em devaneios ou para concentrar-se no que existe em seu bolso: o objetivo é jorrar e recriar-se em imagem e semelhança, miniaturas de eus e mais eus, ambos os sexos, ambas as partes separadas e tudo depois vai desnutrir o chão em que deitamos. mas tudo é tão rápido que o que se pensa nem sempre é o que se faz. de tanto fazê-lo, acostumou-se como costume da natureza, a busca e o encontro físico, talvez o emocional, quem sabe. quem sabe do próximo passo? quem sabe da reclusa e do esquecimento se tantos tem os seus pares e ele não procura alguém a quem se encaixar? às vezes a fruta vem inteira, sem faca dolorida do nascimento que corta um cordão que procuramos restabelecer, mesmo que metaforicamente, através de um órgão que se mexe mais do que chocalho de cascavel em alerta, mais do que falo no cio da noite dourada daqueles dias de lua cheia. e lá se vai o real significado da lua cheia, ou melhor, o criado por poucos, da beleza e do encanto, contrastando com o outro, mais comumente usado.
compactando toda a massa sobre outra massa, sentindo-se o próprio peso e deitando por cima do corpo do outro o seu próprio de uma forma mais intravenosa do que o diabo no próprio corpo de um deus-humano em fúria santa. a guerra, sim, a guerra dos corpos e dos encaixes sagrados, o sacrilégio e a sodomia do debaixo-terra. é tanta procrastinação da vida que só resta ao nosso protagonista momentâneo achar a sua moeda de 25 centavos e jogá-la aos céus até que alguém a pegue no ar e entre na próxima loja para comprar um elástico protetor lubrificado.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

um verso.

três palavras. três silêncios preenchendo os vazios da minha voz. a cada vibração das cordas vocais, um suspiro sai por onde o mesmo ar entrou. mas, o mesmo? sim, o ar é o mesmo. mudado, mas, essencialmente, o mesmo. cada partícula de vida possui a sua essência, assim pensamos todos nós. e continuamos e pensamos e dizemos e ditamos: a verdade é incorrigível. omitimos, no entanto, sua inalcançabilidade. todas as coisas são tangíveis, sim, mas adentrar um círculo é muito mais complexo - e completo - do que derreter-se, fundir-se. o que quer que seja.
três batidinhas na porta também possuem o seu significado. mas o que significa para cada um de nós três batidinhas na própria testa? um ato de coragem? de compaixão? piedade, auto-flagelação, impunidade, dor, raiva, medo, ódio, o que há de pior, e o melhor...? e o si-próprio que interpreta cada som, cada passo no abismo, cada audição nova e cada sibilo no espaço. tudo é metafórico demais, não há escapatória. somos um ponto numa folha negra, uma folha que convencionamos num só plano, mas, assim como as três palavras, os três silêncios e a cada uma das batidas, percebemos que não existe nem um nem dois caminhos. também não são três. mas o três é o mais-de-dois, o mil, o diverso. o diverso do universo e de nós mesmos. nós, eu e você, dois pequenos pontos que nem se enxergam um ao outro, tão grandes para si mesmos, pequenos demais para os outros. somos brilhos no espaço que não se enxergam, que não existem a olho nu. existirmos, ao que será que se destina?