sábado, 28 de agosto de 2010

a pergunta: há resposta?

eu não sei explicar como eu me sinto a respeito disso tudo. na verdade, eu não sei como é que eu me sinto. não sei como explicar o que eu não sei se sinto. o que é tão tênue, tão misterioso e tão... singular. vem como num fluxo, um turbilhão de idéias que eu não sei se podem ser reais. tudo imaginação de minha parte. é um calor que chega por trás e agarra a gente pelos braços, deixando espaço só para respirar, ofegante, sem poder nada fazer, só tranqüilizar, compreender, entregar-se e, enfim, viver. seria?
não sei se ele entende. se eles entendem. sendo tão indefinível, como procurar ou inventar palavra que comprima tudo numa só moldura? quatro lados, fechando um quadrado, noventa graus perfeitos, fechando um cerco e enquadrando tudo o que vem a ser limite de fim. as coisas não são assim tão fáceis. a volatilidade do mundo é algo que assusta e assunta a mente e a boca. o humano é um bicho que pensa demais, não flui leve como as ondas do oceano. e, ao mesmo tempo, pode ser tão profundo como tal. bicho é uma coisa que não se enquadra.
e eu tento, mas tanto tento que desisto de tentar encontrar uma resposta que se encaixe perfeitamente nessa moldura dourada de quadro de santa. santo é o vinho que me oferecem todos os dias e eu nego, não por piedade, mas por auto-preservação. prefiro estar lúcido na hora de partir em dois. e eu continuo a negar as limitações, as imposições que são postas face à minha face: duras caras que se encaram, esbravejando de fúria e rancor, sem som, sem sentido, motivo. é o erro humano de contestar? não. o acerto é a coisa certa, pois é no contexto que se revela o sentido da frase narrada anteriormente por uma voz que surgiu de dentro, bem de dentro.
do fundo de tudo o que sai não pela boca, mas pela pele, transpirando não só água, mas tudo o que sai e volta e se recicla num ciclo infinito que recita um poema abissal. abismo é o que se enxerga - não se enxerga - no que eu tento falar. e o que eu falo por tentar falar não é o simples poema ou a complexa poesia da vida e do amor: eu falo de minúcias, pequenos detalhes que coletamos pouco a pouco no traçado de carvão exposto no corpo de cada um. uma gota de suor pode dizer muito mais do que a junção de três palavras inventadas com sentimentos egoístas. a invenção da posse alheia é o que de mais pior há e, dentro do meu campo de visão a olho nu, enxergo corpos nus de si mesmos, de uma verdade que não me era para ser vista. cada um deveria sentir a própria verdade no seu corpo nu, exposto ao sol ou à chuva, ao que de mais gelado há.
se por um lado o interior biológico dos humanos é relativamente quente, eu me resfrio ao olhar toda essa mentira e delimitação desmedida das coisas. é tudo tão artificialmente colorido que eu nem sei mais. nem sei mais o que dizer, inventar, criar para tentar expressar o que de mais íntimo me é. não posso falar do que eu não tenho certeza. ou será que posso? será que posso expor minhas visões e minhas incertezas acerca do mundo? será que posso me expor a um mundo que não conheço por completo e que não sei se me completa?
temo que não haja resposta para tal pergunta. o mundo é complexo demais para se fazer entender.

sábado, 21 de agosto de 2010

espumosa.

mergulhado no mar, uma espuma branca sobe para avisar que me afoguei. uma espuma branca, uma pasta, gosma massuda, ligando as margens de um mar azul-profundo, de águas tranqüilas e malemolentes. o som das águas anunciando um suspiro, um leve caimento, um dedo tocando um coral. e as cores, dançando suaves na brisa que vem de dentro do mar, essa outra brisa que a gente acostuma a chamar de maré. ondas de ar, torsões de dentro do pulso, os ossos descalcinando, as pálpebras esmorecendo. uma onda branca que tem um destino revelado desde lá, de um outro lugar, de um profundo que a gente não consegue enxergar, mesmo com a luz sem luz, mesmo com o ar sem ar.
o mar que mergulhei, não sei o que tinha. tinha coisas que eu vi e não vi, que consegui e não enxergar: porque tive de deixar os olhos cerrados, fechados para que eu não ficasse cego. uma vez vista a verdade, as aliteração mundanas se dissolveriam entre o lá e cá das minhas mãos, as palmas das minhas mãos. e não adiantaria plantar semente, porque esfacelar é coisa de muito não-amor. preferi caminhar no intangível, ouvir os sons, os poemas não-ditos, sentir a diferença de luz que as pérolas produziam nos meus olhos, as conchas tamborilando as pedras, os corais, os corais entoando canções de mar de amor. o grave do amor, sentido na pele, nos poros da pele: a essência saborizada entrando pelos buraquinhos ínfimos da pele.
o que flui mesmo é vapor, desoxidação de pensamentos, fluxo de margens fluviais, tudo isso no interno. o pensamento contíguo ao meu, o sorriso que eu imaginei de lá do fundo, tudo faz pensar no daqui de cima, no aqui, no lá e acá. cá de longe, eu senti que tudo fluía melhor nas ondas saborizadas. no ar fica tudo mais denso, tudo sempre mais pesado, atraído por constantes e inconstantes acontecimentos: coisas do coração: coisas sentidas e inventadas pelo bicho. ao contrário do dito pelo não dito, o mar é mais leve, o oceano é profundo e com mínimas - nulas, quase nulas - pressões. sem civilidade, sem contemporaneidade, sem tematizações. sem cadeiras, caixas, divisórias.
tudo o que de mais pesa é uma pétala que cai de lá de cima, que surge daqui de baixo, que se encontra no nascimento, e no morrimento, no meio, no antigo, no agora, pretérito e futuro, caminhos se miscigenando, uma não-linearidade de palavras que nascem morrendo. o tempo flui.
o que mais me dói de antes agora é a lembrança do que não sei - não vi! - se houve. eu estava numa concha, dentro dela. desde a superfície ao profundo até o eterno retorno: dentre todos os caminhos que eu passei por dentro. dentro de mim mesmo, descobrindo o que não posso ver, o que não posso tocar, mas posso sentir.

sábado, 7 de agosto de 2010

posso ir?

Tem menos impacto no meu corpo quando eu me deito e fico só a observar o sol ir embora. Intuição é uma coisa que não falha mesmo. Os copos de água espalhados pelo chão, os pingos caindo do teto, o cheiro de sangue fresco e os sons não me deixavam enganar minha mente e olhos: era aquilo mesmo que eu estava prestes a presenciar. Essas coisas a gente evita ao máximo, mas sempre acontecem. Comigo, com todos. Às vezes demora, mas não falha. Todos terão um dia na memória de gotas que temos por dentro. Para tudo falta tempo, mas tudo vem com a calma que o vento morno proporciona na jugular da gente.
Depois eu fiquei pensando se eu tivesse feito de mais, ou de menos, como que seria tudo isso, se tudo isso aconteceria, se tudo ocorreria da mesma forma e na mesma velocidade. Mas acho que não, que não vou saber nunca, pois só se vivenciam as coisas mesmas uma vez e pronto, ponto passado a limpo na vida de quem não quisera ver e viu sem querer. As coisas são assim mesmo: o mundo, as pessoas. E tudo tem sua linha limite, tão tênue quanto a linha do raio do sol que vem cegar meu olho esquerdo, o que vejo menos e que esforço mais. Tudo faz tempo e faz falta, como se, quando a gente fosse menino, já tivesse previsto que iria viver juntos para sempre, que nem em conto de fadas. Mentira, depois a gente acaba descobrindo que é tudo mentira, que o mundo é injusto e que filhos não se fazem muito por amor, mas por sexo.
É tão desoladora a cena que a gente passa a ficar pessimista e só vê o lado ruim das coisas, das cenas de filmes que passam no televisor e a gente nem não assiste. Seria mais fácil pegar uma mão e tampar a vista, fazer a visão ficar turva ou negra mesmo, no escuro mais lindo que deveria ser a nossa verdade. Seria maravilhoso, não, se tudo fosse assim? Todos nós deveríamos pensar dessa forma: seria mais sereno viver. Mas as coisas não são sempre elas mesmas. Existem variações, a diversidade do dicionário e de tudo o mais que possa vir de outra galáxia, de outra mente, outro mambo.
Será que eu deveria ter visto isso mesmo?, chego a me perguntar de outros tempos. A paixão é tão desoladora que descontrola nosso corpo. O amor, que chega mais devagar, vai sendo construído, o que, de fato, faz com que a queda seja bem mais dolorosa. Quem me dera se tudo fosse colagem de papel que nem no Japão... Queria poder viver num filme em tons de azul, feito água em ebulição dentro da gente. Meus queridos filhos estariam muito mais calmos em certas datas e, talvez, eu nem tivesse de me preocupar com dinheiro. Eu nem teria de me preocupar com coisas como pensão, separação, divórcio, todas essas coisas jurídicas às quais temos de nos submeter quando somos traídos pela pessoa que pensávamos também nos amar profundamente. Coisa de paixão não serve muito como desculpa nessas horas, porque a fidelidade é o que mais mata o ser humano. Seria tão mais fácil se tudo fosse mais livre, sem amarras, sem roupas, sem papéis, sem cartórios e sem anéis de ouro ou prata ou cobre ou bronze ou minério que for. A gente mapearia o corpo com pintas, com pingos de água e tinta e tudo faria mais sentido do que fazia a três anos atrás naquele quarto, naquela cama, naqueles lençóis e naqueles olhos que juraram amar para sempre. E amor não é uma coisa que se jura: é uma coisa que se tem, cru ou cozido, tentando permanecer e cultivar. É que nem planta, mesmo.
Se eu pudesse me afundar numa banheira de sete metros seria bem mais fácil, tudo bem mais fácil. Eu teria luz nas sombras que a água faz e tudo faria mais sentido, mais azul e mais ebulicionista eu seria. Eu borbulharia por dentro, seria mais feliz. Mais feliz eu seria se eu não tivesse te conhecido? Acho que não. Tudo faz parte da vida, a vida é um processo que se pensa e que se faz às calmas e aos poucos, botando pedrinha por pedrinha nesse caminho de amarelinha. A gente tem que ver de fora e pensar que tudo vai ser feito aos poucos, para poder, depois, ir embora sem deixar mágoa, nem trégua nem água, que a gente precisa disso tudo pra enxergar a luz que sempre vem lá do fundo. E ela vem logo, que eu já vou indo, pensando nos meus filhos, queridos, que passarão e passarinho pelo tudo que eu vi de pertinho. Adeus não bastaria, mas talvez um abraço e uma despedida de gotas, tudo para marcar mais um caminho na vida minha e dos outros.
do filme de profundis.

domingo, 1 de agosto de 2010

gota d'água.

eu nem me lembro se faz tanto tempo assim desde que eu resolvi começar com tudo isso e nem penso se isso foi bom ou ruim. as coisas são pelo que somos, e nada mais é além do que virá a ser para nós. talvez eu, na minha mediocridade mediana de ações, tenha pensado que seria melhor ir e não olhar para trás, buscar sempre aquilo que estava na minha frente, olhar através da luz e buscá-la sem um propósito fixo. fui frouxo na minha motivação e, hoje, não sei mais se agi de uma certa forma ou de uma forma certa. afinal, inversão de palavras é o que mais há nesse mundo de amores crudos. pode ter sido crueldade minha, mas, naquela época, eu desconhecia palavras e gramática normativa lingüística: tudo se definia para mim através dos olhos e bocas das pessoas e coisas. hoje, os reais significados, apesar de estarem num livro preto, não residem ali. as coisas, sim, mudam no devagar depressa dos tempos, inclusive o que eu quero dizer, disse e, provavelmente, direi. daqui a dois anos, é bem possível que alguma palavra que eu tenha escrito não signifique aquilo que eu havia dito. ou agora mesmo, palavras que invento ou deixo de inventar, que resignifico e construo de acordo com a minha percepção e perplexidade.
o fato é que eu não acredito mais em amor. e isso é duro demais, eu sei, cruel demais, também. mas as coisas são fatos concretos que nem sempre se assemelham aos objetos que podemos tocar. uma lágrima que caia do meu rosto pode servir de alimento para um peixe-espada e uma moréia pode se sentir mais feliz com a condutividade do meu rosto. se eu amoleço a minha face, deveria sentir, então, a dureza dos ossos e das cartilagens do outro rosto que tenta se encostar - e se encontrar - em mim. as mesmas coisas, seladas num só, compactadas que nem pó de café, representam a infinitude e a complexidade dos olhos esbugalhados de uma face de menina singela. ou a dureza dos ossos de um menino magrelo, que pode dizer um sim em inglês e um não em coreano. as palavras não mudam, elas se trans-recombinam e transmutam de acordo com a nossa caneca, metade cheia ou metade vazia.
por isso que, quando um pingo de chuva cair no centro da minha testa, aí sim, talvez, eu realmente descubra o que eu tanto procuro.