quarta-feira, 27 de outubro de 2010
a barata.
sábado, 23 de outubro de 2010
brisando.
levando, levando, nunca saio do lugar. o que me traz da nascente até a foz não é o fluxo da minha matéria, mas a própria essência do movimento ondulatório do meu por-vir. digo, o que eu não disse, porque não havia como dizê-lo, tento agora dizer nas poucas palavras que restam por tempo. do tudo que eu tenho como sobra, dou a maior parte aos que mais querem e fico com o pouco necessário para que eu não morra: é assim. garanto que não perco as forças com o extremamente necessário que faz com que circule sangue oxigenado em minhas artérias, com que eu tenha pulso. e se meu pescoço dói, é por reflexo de coisa que a gente não nomeia porque não faz parte da nossa realidade - nem tudo tem nome, enfim.
basta farfalhar um pilha de folhas e o vento da manhã já sopra sobre a gente, furioso, acariciando nossos lábios com um bom-dia trazido nas pequenas partículas de pólen que se fecundam em nenhum outro lugar além do nosso coração. minha boca se torna o útero das flores, minha garganta será o cordão umbilical de um vida poética que surge do vento, trazido pela brisa do acaso e eu, como mero meio, transformo-me em mãe e pai de um bicho que nem tem forma física no nosso mundo de três dimensões: poesia não é coisa que se vê, mas que se sente, presente e harmonioso como o sorriso de um campo de dentes-de-leão.
eu, eu mesmo, nunca saí do lugar. o mundo que girou um pouquinho para a esquerda e me levou junto. carreguei minhas malas vazias para o espaço que me foi dado sem mexer um dedo ou dar um suspiro profundo. se isso é o que chamam de sentimento, eu me sinto feliz por ter feito parte desse mundo, por ter tido esse sinestesia nos meus poros e, no golfar do anoitecer, ter visto a lua beijar o céu na esperança vã de que o sol sentisse o seu perfume e provasse da sua saliva. se a boca dos bichos daqui de baixo é molhada e entupida de outros bichos menores, a saliva da lua é seca e suave ao mesmo tempo, correndo como um rio fino que hidrata apenas aquelas pequenas plantas, que não crescem muito, é verdade, mas que muito sonham com o mundo e devaneiam sobre as belezas alheias. sem os espelhos d'água, o olho de cada grão de pólen que sai de sua mãe chega num pai recíproco que fertiliza e amamenta carinhosamente o conselho da manhã.
se a noite é bonita, o amanhacer ganha seu encanto pela transição de cores e pelo degradê fulminante que cria nas minhas pálpebras. sou um amante do mundo natural e, como tal, prometo vegetar antes de morrer nesse mundo, digo, passer-me-ei à planta antes de tirar os pés do chão. até lá, fico a apreciar o cheiro da saliva matinal e as pétalas de dente-de-leão que vem me anoitecer em sono leve e profundo.
domingo, 3 de outubro de 2010
encontro "divagão".
– O conto que eu conto agora não se basta em si só: ele é além; transcende que nem borda transparente. Procure-me, procure-se nele e em tudo o que lhe entenda de mais do nada que lhe fizeram só por aqui e por dentro-fora de si mesmo, querido amigo. O que de muito belo toca, o dedo anota. E por mais leve que seja a canção, dê-lhe um toque levíssimo de açafrão, que a cor amarela é bela tanto ao nascer quanto ao pôr da estrela-maior que vemos daqui de cima-baixo.
– Diga-me simplesmente: o sol, estrela-maior que nada além é. Não se precisa de mais palavra para o que já reúne em si só o que já é por total.
– Pois que se engana, denominado A. Nenhuma vogal, por exemplo, pode lhe definir o que é. Se chamo-te A é apenas porque não sei eu o nome e o que tu és. Não te conheço, não te sei. Mas confirmo que, nome por nome, nada define o belo da natureza. Pois que diga o contrário, caro viajante.
– Pois que não digo, pois, além de ser fácil de persuadir, encantaste-me com tuas palavras e com a mais pura verdade. Não me entenda por mal, mas repito na boca o que me colocaram na cabeça desde criança. Nasci em família cética, desonrada das letras e, por isso mesmo, detestadora. Ora, pois veja só: tanto sou de minha família que nem sei se o que disse existe. Existe?
– Isso muito não importa, caro viajante do pé andante, pois, palavra por palavra, a gente inventa uma a cada momento para cada situação. Palavra não é para isso mesmo?
– Pois me diga, que eu nada sei. Como disse, nasci desonrado e desamigo das letras, que minha família não tinha nem papel em casa. Se tinha tinta, era para pintar parede e só. E receita de bolo era só pelo fio puxado da cabeça.
– Eu nada lhe afirmo, pois cada um descobre o que se quer descobrir e cada um obtém a sua própria verdade supra-interior. Não lhe interfiro no pensamento arrojado de palavras, que estas são tuas, e só tuas.
– Se por palavras não sei expressar, talvez um sorriso me sirva. Penso que assim retribuo-lhe, mesmo que pouco, a rápida amizade de trem. O que posso fazer por ti, querido amigo? – se é que assim posso te chamar.
– Não me faça nada além do que já fizeste: companhia. O bom homem sabe.
– Sabe o quê?
– O que tu queres saber e, por não olhar, quase inspira pelo nariz. Tenha calma e cuidado, que no próximo vagão, se não te alertares, inspirar-lhe-á a náusea do riso. Bom sorte com a vida.
– Obrigado. Desejo-lhe o mesmo.
– Não deseje. Tenha para si. Adeus.
– Adeus.
– Diga-me simplesmente: o sol, estrela-maior que nada além é. Não se precisa de mais palavra para o que já reúne em si só o que já é por total.
– Pois que se engana, denominado A. Nenhuma vogal, por exemplo, pode lhe definir o que é. Se chamo-te A é apenas porque não sei eu o nome e o que tu és. Não te conheço, não te sei. Mas confirmo que, nome por nome, nada define o belo da natureza. Pois que diga o contrário, caro viajante.
– Pois que não digo, pois, além de ser fácil de persuadir, encantaste-me com tuas palavras e com a mais pura verdade. Não me entenda por mal, mas repito na boca o que me colocaram na cabeça desde criança. Nasci em família cética, desonrada das letras e, por isso mesmo, detestadora. Ora, pois veja só: tanto sou de minha família que nem sei se o que disse existe. Existe?
– Isso muito não importa, caro viajante do pé andante, pois, palavra por palavra, a gente inventa uma a cada momento para cada situação. Palavra não é para isso mesmo?
– Pois me diga, que eu nada sei. Como disse, nasci desonrado e desamigo das letras, que minha família não tinha nem papel em casa. Se tinha tinta, era para pintar parede e só. E receita de bolo era só pelo fio puxado da cabeça.
– Eu nada lhe afirmo, pois cada um descobre o que se quer descobrir e cada um obtém a sua própria verdade supra-interior. Não lhe interfiro no pensamento arrojado de palavras, que estas são tuas, e só tuas.
– Se por palavras não sei expressar, talvez um sorriso me sirva. Penso que assim retribuo-lhe, mesmo que pouco, a rápida amizade de trem. O que posso fazer por ti, querido amigo? – se é que assim posso te chamar.
– Não me faça nada além do que já fizeste: companhia. O bom homem sabe.
– Sabe o quê?
– O que tu queres saber e, por não olhar, quase inspira pelo nariz. Tenha calma e cuidado, que no próximo vagão, se não te alertares, inspirar-lhe-á a náusea do riso. Bom sorte com a vida.
– Obrigado. Desejo-lhe o mesmo.
– Não deseje. Tenha para si. Adeus.
– Adeus.
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