Abre os braços, senta de bruços e começa a chorar. Ao se derramar cada lágrima, uma gota de luz se faz no brilhar do sol. É a menina, tão pequena e tão imensa, tão frágil e feminina, despedaçando-se ao redor dos LP’s do Mautner e da Elis. A Nara, sua cara de leoa, seus olhos de cachorra perdida, sofrendo a cada instante pelo cheiro desgovernado do mundo. Não se vai, anda passo por passo e sente em seu coração o compasso daquilo que é. Menos de mil anos, mas muito tempo. Muito, muito tempo, tanto que nunca poderá ser imortal. Imortal no sentido figurado, aquilo que transparece o coração que é. Senta e chora na poltrona do canto esquerdo, sempre esquerdo. Poltrona listrada, tantas listras que não se acabam no fim, que reverberam ainda na canção visual dos seus dedos, das linhas da sua vida e que se propagam nos espaços dos seus átomos. Átimos de auto-piedade e de um amor próprio que sente no âmago do seu ser um tum-tum, tum-tum que faz a volta atrás da formação rochosa que embala o seu sono. É muito pouco tempo que se tem para se descansar de viver, de sentir em si as palmadas, batucadas e cortes profundos da faca de dois gumes que nos é dada assim que desgrudamos o primeiro cílio. Tempo pouco para poder respirar profundamente e seguir, pé-ante-pé, na corda bamba que bamboleia o nosso equilíbrio. E aquilo que se tem de eqüestre fica lá pelo pasto, a aninhar o feno e resguardar o som mastigativo do capim que alimenta o nosso ser. É de um querer gritar que não tem fim e não tem como, que não tem o som mastigativo de um chiclete, que não tem a crocância de uma castanha fresca, de um osso recém-nascido no ombro, a clavícula esquerda que se foi embora para um lugar distante ao som do “crack” aos nove anos de idade. Tudo isso faz parte dela agora, mesmo com seu rosto derretendo-se nas lágrimas negras ao som de um canção em espanhol que a abraça e afaga o seu choro, o seu rosto, que acaricia os seus seios e lhe faz sentir bem, bem no fundo, um bem que não se mede. Nunca mais vai dormir. Vai pensar naquilo que lhe fez jogar os LP’s ao deus-dará, vai se arrepender e depois se resguardar para a culpa, ignorá-la, deixá-la dançar com seus braços sem nem mesmo ter seus braços envoltos. A culpa que dance, e cante, e rebole com seu gingado atordoado, mas que fique em silêncio, pois é quando se silencia que se mata a culpa de não ouvir o que não se tem como ouvir. A surdez de Nara nunca será castigada.
sábado, 14 de maio de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Do nada, se fez o tudo. Ou será que veio de alguém, uma ou mais mãos divinas, quem sabe? Até que se saiba, acreditaremos apenas que nasceu, e nasceu fazendo barulho, tentando abrir os olhos e se deixar cegar pela luz branca ofuscante que queima as córneas assim que traumatizamos ao nascer. O primeiro passo é a primeira respiração, e a gente a ouve de perto a longe. Inspirar bastante o ar que paradoxalmente limpa e suja o nosso corpo do viver ao morrer. Depois são os tapas, as quedas e os sons do corpo, o molhar o rosto e as gotas remanescentes que brilham em diversas cores. Uma bolinha, um montinho de gente, um útero ou apenas o planeta Terra – que, pra falar a verdade, nem é tão redondo como andaram dizendo pra gente até algum tempo atrás. Somos pontos, afinal. E vamos, nas correntes do vento, formando bolhas e bolhas para tentar proteger aquilo que é minimamente nosso: nosso espaço vital. Alguns passam, outros ultrapassam, e outros nem. Nem chegam perto. Repulsão completa, e a gente vive a procurar os porquês, e tenta se encaixar no que não cabe, acredita no que não deve, pensa o que dizem que não, faz o que deveria e o que não, e faz você mesmo, e deixa os outros fazerem, mas continua a buscar, correr, o tempo passa rápido, o tempo não acalma, o tempo passa depressa. Vai, corre. Vai, vai, devagar, devagarinho, que o tempo se acalma com o tempo, enverga o suporte, entorta a gente e só nos resta repousar. Repousar e pensar “O que é que eu tava procurando mesmo? Nem sei.” De tanto procurar fora, esquecemo-nos de procurar em nós mesmo aquilo que nos define por “nós”. E o que somos nós, eu me pergunto? O que são “nós”? Nó na garganta, nó da orelha, milha náutica, mais de uma braçada, o meu braço cansado, cansado de remexer nos outros, procurar o distante, encarar a face do outro e tentar pôr em mim, repetir o que ele fez, o que eu vou fazer, o que eu li, e tudo faz parte da minha partitura corporal. Somos música, afinal? Somos pequenas coisas, pequenos sons, montinhos de gente, quem sabe, a bater uma asa aqui e gerar uma explosão de lava lá no meio do oceano, numa ilha que brota no meio do oceano, único lugar onde não procurei meu sapato. Será que foi para lá? Será que eu deixei meu pé congelar na imagem do transposto e no transverso do que eu mesmo sou projetado num espelho que reflete todas as minhas cores? E meus nomes? E meus “eus”? Sou mais de um? Sou “nós”? Penso comigo mesmo se sou um ou vários, discuto comigo mesmo, ouço os meus demônios e o inferno não é em Vênus. O inferno é aqui, nessa pressão atmosférica. Quem agüenta uma coluna d’água por sobre que se arrisque a mergulhar alguns nós. Mas volte, volte devagar que é pro nitrogênio não despressurizar e formar mais bolhas, bolhas nas suas veias, em suas artérias, impedir esse fluxo que te mantém vivo, essa correria que te faz procurar pelo que te falta, pelo 36 ou 37, o que caiba, o que te faças ser tu mesmo. Pule os obstáculos, viva e morra constantemente, não deixe de ser “nós”, não mude para voar longe, fique aqui com a gente e voe aqui com a gente, corra com a gente, ouça com a gente, crie e harmonize com a gente, que aqui é o nosso aquário, nossa própria bolha, nossa bolha de cristal.
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