quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um som que silencia.

Esse pessoal aqui de casa parece que não sabe o que é felicidade provisória. Já estou há mais de uma semana com esse livro de Freud na bolsa e não consegui tocá-lo desde o dia em que o recebi. Conheço mais o pipi do garoto de que o próprio. Brinco de jogos de armar a quase três semanas e ouço a mesma música faz dois dias.
Eu nunca deixo de fazer essas observações, mas elas são imprescindíveis: um carrossel em miniatura, um móbile com tons de roxo e amarelo, um óculos de aros finos e vermelhos e as cortinas sempre fechadas. Sempre, sempre fechadas. E os outros objetos, sempre muito empoeirados. Empoleirados lá no canto esquerdo, sempre esquerdo, da prateleira central.
As paredes deveriam mudar sempre de cor, como seus olhos. Mas são sempre brancas. Seria inocência demais justificá-lo pelo fato de o branco não limitar o ambiente. É mais por conta do amarelo. Pelo amarelo de seus vestidos, sim. Nem o macacão escapa. As velas, os chás, as xícaras... FOC: fissura obsessiva compulsiva. Os olhos de nipônica não me enganam. Sua gama de cores não passa do dégradé limitado.
“Assim, a beleza do verde acalma seus laços e o azul apalpa seus seios. O som ecoa pela taverna e ensurdece os vestígios de luz da manhã. O soutien escorrega pelos braços lânguidos e entupidos de loção hidratante e...”. Seus livros cheios de lascividade disfarçada. Não é muito difícil de acreditar que ela é uma daquelas que imprime páginas de pornografia que sofreu um certo tipo de eruditação e coloca entre as folhas da revista informativa.
Outro dia, roubaram-me o título de nuvem negra. Não imaginei qual seria a reação dela diante do noticiamento do fato. E não soube. Ela não me deu ouvidos naquele instante; estava ocupada despejando o café na xícara e, com o transbordamento do mesmo, na mesa. Quatorze minutos e ela percebeu. Largou tudo lá e foi ao telefone. Chamou o corpo de bombeiros, naturalmente. Sete dias depois e queimou um guardanapo “acidentalmente”. Chamou um escritor famoso que pouco importa o nome, mas sim o conteúdo.

Todo esse conteúdo é nada. Nada no cosmos, nada no espaço: panos vermelhos, pterodátilos flamejantes, raios na face, lantejoulas flutuantes, músicas de pagode e a animação do bairro que não me atinge. Faltou-me o pé. A luxúria e o pé. Oferecer, talvez.
E não forem sete dias depois e nem cinco anos: minha mente não trabalhou esse tanto até lá. Foi ontem, anteontem, tanto faz. Só sei que as pessoas voam. E roubam os títulos dos outros.

sábado, 10 de outubro de 2009

talvez seja a chuva que cai nessa cidade que eu chamaria de são francisco. mas não é. ei, refiro-me ao nome da cidade. a chuva continua a cair, fina e bela como só. a música lenta tocando na casa, o telefone desligado e a vista pro mar que não existe ali. pode ser coisa da minha cabeça também. mas não é. nada disso é. um pouco de água é para refrescar. e repor em minha memória as lembranças do nosso casamento: suco de uva, vestido branco sem muitos detalhes... não interessa o que vestíamos. sem padre, sem platéia. só nós dois, as plantas, o mar. a floresta guiava nossos olhos e nossas bocas. assovio do pássaro, sopro na nuca, arrepio. o calafrio da beleza. seis minutos e trinta e oito. segundos; batimentos cardíacos; passos; artérias e veias; canções. não havia cadeiras ali. sentados no chão, uma cesta para um eventual piquenique... as formigas fizeram a festa. todos os macaroons que eu preparei... levaram todos. mas quem se importa? não nós. nós não. de repente me deu saudade de comer aquela banana caramelada com sorvete de creme, os deliciosos cupcakes que você fazia no verão. você, com seus cabelos esvoaçantes...

na minha memória, você era um leão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

por esses dias, entra pela porta.

Esses são dias estranhos. Dias de ruas verdes e olhos queimados. Dias de calor e nuvens cinza. Dias... Dias de camisas vermelhas e calças brancas. Dias de toques no braço e fios brancos na barba. Dias nos quais eu me lembro que de tanto desejar a ruivice, consegui alguns fios na barba, essa barba que está grande até. Dias que eu penso em raspar a barba. Porque raspar a barba não é um ato simples. Não é fácil ir ao banheiro com uma gilete e... E passar a lâmina fria no rosto molhado, ou espumado. Não, não é assim. Não é fácil como éter. Não é tão fácil como não atender um celular. Atender um celular ou não atendê-lo também não é das coisas a mais simples.
Talvez seja o brilho do sol ofuscando meu olhar. Ou o brilho do seu colar. Talvez seja o olho se acostumando a enxergar com as lentes dos óculos.
Nesses dias azul-pastéis, de árvores verde-musgo e sol amarelo-manga, a única coisa que eu desejo é sentar-me debaixo de uma árvore de tronco imenso, maior que a imensidão daquele seu brega-coração. Sombra, água fresca (e gelada, caso o dia esteja quente como o que foi hoje): não é isso que eu quero de debaixo da árvore. Dela eu não peço nada. Eu aceito o que ela quiser me oferecer. E não a obrigarei a aceitar passivamente a minha presença. Se ela não me quiser por perto, que peça às formigas ou aos mamões que me mandem embora com um aviso singelo, um simples formigar no bolo ou mamão na camisa, do amigo, claro. Porque árvore não tem brega-coração, mas raízes de salada. Não, por favor. Não de salada que a gente encontra na geladeira de casa. Falo de mistura, falo de folhas, falo de árvore. No caminho das árvores, não somos nozes. Nunca gostei de Natal, então pronto.
Só deixo um recado para você, você do brega-coração: abre a porta de minha casa e pega a jarra de água na geladeira. Depois você decide se vem me encontrar no quarto ou se continua no cozinha e faz uma omelete.