sexta-feira, 25 de julho de 2008

Não há silêncio.

Não há silêncio. Sim, não há silêncio. Tudo é som, tudo é barulho. Aqueles momentos que chamamos de silenciosos são na verdade fantasiosos. Sempre há barulho. Não há silêncio sequer no natural, na natureza. Há o barulho da chuva, o canto dos pássaros, o som do vento batendo nas folhas...
Então é tudo fantasia, nada é o que achamos ser? Como saberemos?
É, Maria. Sinceramente, eu não sei. Não sei mesmo.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Qualquer um.

Qualquer um que seja
Qualquer um que faça
Qualquer um que haja
Qualquer um que passa.

Qualquer outro que rebole
Qualquer outro que não me amole
Qualquer outro que defina
Qualquer outra Marina.

Qual dos dois vai nos juntar?
Qual dos dois vai nos jantar?
o desejo de vingança é maior que
o desejo de perdoar.

e nada o fará mudar de opinião.
quando põe algo na cabeça,
nada no mundo a tira de lá.
teimoso como uma mosca,
ele só.

" - mas moscas não são teimosas.
são irritantes."

não importa!
se ele quis que fossem,
a partir de agora serão.
e se não,
o desejo de vingança será maior que
o desejo de perdoar.

sonhos deles dois.

num dia frio,
ele levanta, dá duas voltas
e se senta.

num dia frio,
ela se deita, rola para um lado,
roda para o outro
e sonha.

ele dorme sentado.
ela dorme deitada.
sonhos se entrelaçam.
sonhos sonhados por dois sonhadores,
em lugares diferentes,
em posições diferentes.
mas sonhos iguais,
que se entrelaçam
e vivem sonhando.
pessoas encadernadas
vidas escritas
pensamentos apagados
e movimentos passados a limpo.

histórias que se dobram,
que amassam.
histórias em branco,
personagens imaginados.
a vida num caderno,
feito por uma caneta
e várias folhas de papel.
Quando não se pensa em mais nada
E quando se pensa em tudo do mundo.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Ele mirava em si mesmo naqueles espelhos.

Ele mirava em si mesmo naqueles espelhos. Mirava-se e atirava quase que se bombardeando naqueles espelhos, naqueles grandes e pequenos, finos e grossos... dos mais variados tipos de espelhos que estavam justamente ali, naquela sala que mais parecia um banheiro. Bem, não tinha privada nem chuveiro. Algumas pias talvez – para as pessoas molharem os rostos ao acharem que estão loucas, creio eu. Mas o que mais deixava aquele local com ar de banheiro eram os ladrinhos, e, com toda a certeza do mundo, aquele cheiro irritante de banheiro, daquele “bom ar”.
Depois de guerrear contra si mesmo, cansou, óbvio. Encostou-se num desses cantos meio tortos que haviam ali. De tão cansado, adormeceu. Não, realmente adormeceu. Passaram milhares de insetos pelo seu ouvido e ele nada ouviu, continuou adormecido. Parecia até a bela adormecida...
Num sono profundo, ele sonhou que estava numa sala como a que estava, e que ele estava atirando em si mesmo, da mesma maneira como havia feito. E que depois foi dormir e que adormeceu que nem uma pedra; que passaram tigres, leões e hipopótamos ao seu lado e ele nada ouviu, e continuou a dormir. E que sonhou que tudo aquilo havia acontecido também. Mas ao invés de tigres, leões e hipopótamos, passou uma banda inteira e ele não acordou. E mais uma vez que aconteceu tudo aquilo. Só que dessa vez passou uma brisa fraca pelo seu queixo, como se estivesse acariciando-o. E dessa vez ele acordou. E acordou de todos os sonos de uma vez, numa rapidez bastante rápida. E ao acordar, não estava mais naquela sala/banheiro dos espelhos, mas sim numa sala branca com algumas manchas borradas roxas.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Ele adentrou a sala com um imenso ar de indiferença. E todos os presentes no local olharam para ele. Era uma presença que era impossível de não ser percebida. Ele transbordava a nobreza que já não existia mais no mundo capitalista. Marcava uma presença aristocrata.
Respirei pouco para fazer com que ele não percebesse a minha presença. Eu sabia que se ele me notasse, todo aquele seu ar ensaiado iria por água abaixo. Ele não suportaria me ver, eu sei. Eu sei muito bem, conheço ele dos pés a cabeça, sei tudinho dele. Conheço-o desde sempre, antes mesmo do seu nascimento. Ele veio de dentro de mim. Era impossível não o conhecer.
Não, a mãe eu não sou. Apenas barriga-de-aluguel eu fui. Mas considero-o como filho. Afinal, ele veio de dentro de mim, do centro do mundo. Eu sei que gerei não só ele, mas todos os outros. Sou a barriga-de-aluguel do mundo. Todos os filhos do mundo são provenientes de mim, tudo se formou dentro de mim e depois foi para fora. É inevitável reconhecer isso.
Eu, o centro do mundo, o centro do Pangéia, a mãe geradora, ou “desenvolvedora” se preferir, de todos. Prazer, me chamo África.