Acontecem certos encontros com pessoas que desconhecemos inteiramente, por quem começamos a nos interessar à primeira vista, como que de repente, súbito, antes que articulemos uma palavra.¹ E foi isso que aconteceu naquela tarde com Benjamin.
Era dia 27, mês de agosto. Ele estava numa cafeteria defronte ao mar, tomando o seu cappuccino diário às 17 horas. Muitos detalhes que para uns podem não significar muita coisa, mas que para outros desvendam todo o mistério.
Benjamin adentrou a tal cafeteria e sentou numa mesa qualquer, essa que estava na diagonal do dito cujo. Enquanto um tomava o cappuccino diário, o outro pedia um frappe ao garçom.
Lá pelas 17:23 se entreolharam. Olhos fixos, mas que logo depois se dispersaram. Talvez por ser tão óbvio. Mas o interesse já havia se instalado. Às 17:27 foi inevitável um não olhar para o outro. E dessa vez foi intensamente fixo.
O sujeito era alto, magro, cabelos não muito grandes, mas nem tão curtos, e castanho. Olhos castanhos também. Usava um jeans já velho, desbotado, uma jaqueta preta com uma camiseta branca estampada por baixo. Um tênis qualquer no estilo all star de cor indefinível e creio que um chapéu preto com linhas brancas e contínuas bem finas. Já o Benjamin... O Benjamin continuava sendo o nosso velho conhecido Benjamin.
Vez ou outra o dito cujo colocava a mão sob o queixo, apoiando-o, dessa forma então demonstrando sonolência e desinteresse. Mas esse desinteresse excluía o nosso Benjamin. No caso dele era exatamente o contrário: era um interesse intenso e quase obsessivo.
Às vezes abria a boca como que se fosse articular alguma palavra direcionada, mas ou bocejava ou desistia. Até que, enfim, Benjamin direcionou os olhos fixamente no dito cujo e fez, com tamanha suavidade, um sorriso no canto direito da boca. Foi praticamente incontrolável para o dito cujo não deixar escapar um "oi". Ele tampou a boca, mas as palavras vazaram pelos seus dedos. Suas pernas também pareciam estar enfeitiçadas, fazendo com que ele andasse até na mesa na sua diagonal. Totalmente controlado por uma força extraordinária disse a Benjamin:
- Posso me sentar aqui?
- Claro, vamos vater um vavo.
- Oi?
- Só uma expressão. Vamos conversar.
¹ trecho de "Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiévski.
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