sábado, 27 de fevereiro de 2010

espero que.

Estou sob uma capa negra, um moletom qualquer que encontrei jogado pelos cantos dessa casa que tem as paredes mais frias que eu já toquei. Não que eu tenha tido muitas vidas, seja muito experiente ou já tenha trocado várias vezes de cueca. Mas é que certos cheiros me enojam. E esses prismas que você coloca nos olhos antes de entrar em meus aposentos me deixa infimamente frustrado comigo mesmo. Você estampa aos meus olhos a minha impotência, o meu descaso com a sua visão e o meu desgosto natural pelo mundo que as pessoas fazem em volta de si mesmas.
Não sinto no meu íntimo a mínima gota cristalina de piedade desses patriarcas que andam pelas ruas dessa cidadezinha cada vez mais cinza. Se eu fosse czar ou algo assim, mandava construir estátuas para todos. Ou até mesmo juntava todos numa casa e tirava todos os seus compostos antioxidantes. Pode ser que seja falta de percepção da minha parte, mas eu não me importo. Nunca tive percepção em toda a minha vida. Por que cargas d’água haveria de ter justamente neste momento? Neste momento no qual enfiam uma faca minha goela abaixo, que eu bebo o chá de amargura de um gole só, que eu seco por dentro e implodo meus tímpanos para que mais ninguém ouça os gritos que tenho dentro de mim.
Nunca me interessei por açúcares ou doces de esquina. Nunca quis comer um torrão sequer. E não haveria de ser agora que eu revelaria a todos as minhas paixões e tremores. Sim, eu tenho conchas, eu tenho pedras, eu tenho colares que não me cabem no pescoço. Eu visto o pano que me aparece, seja vermelho, verde ou até mesmo transparente. Não tenho escrúpulos, não tenho pudor. Se quiser, faço do Senado um puteiro e isso não me incomodaria nem no inferno.
Coûte que coûte, tinjo os cabelos de preto ou de louro na hora que me convir e pouco me incorporam os comentários que farão acerca da minha índole.
Que rubricas revelarão ao mundo as minhas gavetas? Pouco me preocupo acerca deste afazeres domésticos, pouco me importam as crianças nas escolas e os professores tarados: neste mundo ninguém sobreviverá. A máxima já diz: do pó viemos, ao pó retornaremos. Eu prefiro tocar com os meus japoneses, assim sinto-me mais recluso e feliz neste mundo de saunas e saudações patriarcais. Não me enche o saco.
Amanhã eu vou acordar e sentir-me-ei bastante melhor. Acho que é só a ressaca do vinho de anteontem: colocaram chumbo em meus braços e o copo não alcançou a minha mente. Meus neurônios estão a mil aqui dentro. Qualquer inconveniente, basta procurar-me no cemitério três, aquele da esquina dos ipês-roxos. Estou sempre lá. E te espero sempre. Espero que goste de mim.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A sapiência.




Longas, claras unhas. O chão era vermelho e o tapete bordô. O sangue, homogêneo, não se misturava aos queijos derretidos do seu caminhar. Os biombos da manhã, o café do entardecer, tudo misturado, mas heterogêneo. “A vida é curta”, ela me dizia. Mas quem sempre ligou para a carnificina nunca vai se preocupar com a periodicidade linear do sonho ancestral. A musa estará sempre lá, eu pensei anos atrás. Lembro-me dos talhes e das colheres de espuma, das calcificações nos meus ossos e meus ombros calejados. Com tudo muito insano, muito insípido, sei que sou inóspito. Um grande corvo, pássaro preto de asas rasas de paixão e dissabor romântico. Faço dezessete, três anos de solidão. Quarto escuro, uma taverna sem bebida. Sem álcool, que me anima. Onde tem álcool, tristesse. Estando em desconstrução, meu sangue não me corrói. A poeira dos olhos, a remela do lampejo; lhama escassa, dedo na boca. Faço parte de uma poesia itinerante da angústia dos anjos. Sou linha e pontapé, suddenly banana. Um matadouro, coração com espinho. Irmãos e irmãs, juntem-se nessa aventura insípida da alma que sucinta o afago acolhedor dos campos de girassóis. Foi tudo uma ilusão sem caráter avaliado, eu sei. Também sei dos sóis que habitam a órbita dos olhos teus, tua boca carnuda e os seios fartos. É, tudo grande, que nem a palavra coração. Mas meu mundo é pequeno e, de grande, só cabe a mim mesmo. Por isso fecho-me e deixo para trás tudo que me foi, um dia, incipiente.