sábado, 24 de julho de 2010

Roseando, eu queria.


Como eu deveria expor isso, eu nem sei. Sinto só que ela deveria ter dito mais do que disse, que eu deveria também ter escutado mais do que escutei. Mas a gente acaba dando prioridade às coisas mais desimportantes nos momentos mais especiais. Na verdade, a melhor palavra seria brilhosos, mas a idéia daquele momento não é de iluminuras, e sim de estrelas, no seu sentido mais metafórico possível e passível de aprovação, pois não é qualquer estrela que a gente pode pegar com uma caneca. Se uma onda atravessasse aquele caminho naquele mesmo momento, acho que eu mesmo assim estaria com um guarda-chuva na mão, preto e nebuloso, esperando tudo se passar dali para frente, esperando a espera de todos os tempos e dos três sinais. Cada passo das escadarias não faria nem mais nem menos sentido. Apenas seriam simples, como o foram. Meus pés teriam a mesma indecisão, a mesma espera; espera, que já vai ser a hora; espera, que a luz já vai e já volta; que já é hora de tremer e se alimentar de sonhos...
Eu pensei errado sobre tudo o que deveria ter acontecido e nem previ o que eu sentiria, a sertanidade mesma dos meus olhos e tudo o mais da luz e do escuro. As iluminuras me trouxeram lembranças que eu tive e não. Tenho certeza de que eu vou sentir falta e que a palavra que melhor me definiria agora é saudade.

Engraçado. Guimarães tinha mesmo razão: saudade é ser, depois de ter.

sábado, 10 de julho de 2010

viagem ao fundo de mim mesmo.

Se eu parasse pra pensar em tudo o que me faz falta, perderia meus olhos de tanto que eu os sentiria cerrados. Para falar a verdade, passei a madrugada inteira ruminando essas palavras inconsistentes. Inconscientemente criei pseudônimos para o meu pônei e pensei que eu poderia voar dali em diante. Teria que nunca mais olhar para trás e pensar só no agora e sempre. Minha rotina teria um novo foco, andaria novas trilhas e traçaria novos rumos. Eu viveria num mundo dali por diante, uma cadeia fechada na qual eu não mais andaria em círculos, mas sempre em linha reta. Esse seria o meu novo paradoxo.

Mas a ansiedade me tomou conta e eu quis ver e viver antes do necessário. Precisaria do tempo que não quis me dar. Os sonhos, deveria eu supor, desconstroem-se quando idealizamo-los por demais. Pensei em publicar todas essas letras e tardar a minha infância, leviatar o meu desespero e a minha crescência de ser doente dali para frente. Meu caminho seria só um, e em linha reta, assim como eu havia sonhado. E eu queria nada mais que aquilo. Queria logo; queria de profundo. Mergulhei rápido demais e vi que as águas, que anteriormente pareciam estar revoltas, eram serenas e ninantes, a ponto de me fazer perder o ponto de vista, a opinião daquilo tudo. Pensar no monstro do mar de nada adiantaria para mim. Queria só o quebrantar das ondas, a língua impronunciável e a comunicação inaceita por mim. Incomunicação era o que eu tencionava. Disse qualquer coisa em espanhol, um adeus, antes de partir e não disse mais nada durante um caminho que previra tortuoso e maremotento. Era a minha significação logo ali que eu busca-vida. Ouvi música sem letra, apenas melodia laboriosa e sensata de som de mar frágil e indescritível. E fui; parti-me em dois e fui.

Não deixei registro nem carta postal, porque não queria sentir no dorso a dor da perda e do abandono. Aquilo era para mim e meu, assim como meus ossos. Eu tenho alma dentro deles e não deixarei o cálcio corroborar com o endurecimento de um coração molengo. Eu tinha força suficiente e ainda de sobra para poder pôr-me de pé ante a escadaria coclear. Eu era a minha casca, o meu casulo; e dali não sairia borboleta, mas sopro de vento. Ouvi a mesma canção até tomar fôlego e dei cada passo de vez, alimentando minhas botas e pensando com os pés: para que lado fica o direcionamento da bananeira da casa da avó? Eu deveria pensar com os olhos também, mas, de tão cerrados, nem lágrimas dali saíam. O cálcio aferventou meus olhos e me deixou mambembe de cor. Meu sibilo era o meu som, não minha cor. Cor agora era coisa de daltônico para mim: tanto faz, já que não enxergo. Eu via era som e movimento, tudo o que me importa.

Parti para ali-além, para nunca mais voltar, pensar nos pássaros-passos e olhar para trás. Eu não precisava marcar um caminho que nunca mais percorreria. Eu disse adeus e fui embora para dentro de mim.