as cortinas são amarelas. ela está de saia. e eu de calça, como sempre. estão pintando a rua de verde. e as nuvens estão com muita pressa no céu, dá pra ver. dá pra ver, mesmo com as cortinas. outro dia elas eram laranjas. mas agora estão amarelas. ou é o salitre ou você anda economizando algumas nicas e aumentou o seu estoque de cortinas coloridas.
- canta uma canção de amor pra mim?
eu consegui ouvir, mesmo de longe. desci correndo as escadas, mesmo com o cabelo sujo. corri tão depressa que ia te alcançar em um minuto. a casa abandonada nunca pareceu tão alegre pra mim; as árvores parece até que sorriam, dizendo pra eu correr mais rápido, mais rápido, mais rá... pido. e eu parei. dei um suspiro, olhei pro chão. fiz um coração com os pés... e toquei a campainha.
nem precisava. você já estava no banco do lado de fora e eu nem tinha percebido. fez um psiu e deu um sorriso sem mostrar os dentes, mas mostrando todo o amor que haveria na minha canção. me passou o violão e... e eu cantei. cantei a mais bela canção de amor que já existiu. a sala se encheu de balões e botões, os de rosa e os de costura. todos os três vermelhos. ou seriam... não, deixa pra lá. vermelhos mesmo. e um monte de cristais onde o sol batia e refletia luz nos nossos rostos; e nossos olhos parece que eram quatro desses cristais. se eu estivesse de óculos, seriam seis. é, besteirinhas minhas nunca hão de faltar.
algumas pessoas abriram as portas de suas casas pra saber o que estava acontecendo no corredor, mas a gente nem deu bola. a gente nunca dá bola. o mundo passa todo devagar pela gente. o mundo... o mundo se eleva um instante enquanto a gente se olha. e esse instante dura pra sempre. pra sempre. nos meus olhos, na minha mente e no meu coração.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
domingo, 6 de setembro de 2009
Falta açúcar?
Não sei se conheces as duas faces opostas da lua, mas me parece que esse garoto as tem. Com o cheiro de álcool em suas mãos, ele diz que me adora e tenta me abraçar. Não sei porquê, mas eu sempre me esquivo. Não dele; mas de abraços. Acho que é como se fosse inerente a mim. Mas eu tento não o fazer, pois por mais que eu deteste manifestações calorosas de afeto, ele me faz sentir bem.
É muito mais do que isso: ele é amigo. Amigo daqueles de verdade, daqueles que a gente até daria um beijo na testa, por mais que odiemos manifestações calorosas de afeto.
Um som de piano ao fundo, uma sala com lareira e sofá verde. Ele no canto, tocando flauta; eu no sofá, contando as estrelinhas que dá pra ver céu através da grande janela. Mesmo de costas, eu consigo ver em seus olhos a inspiração do seu sopro. Não, não é abordagem do cotidiano: não é todo dia que a gente sente num sofá verde.
A qualquer hora ele se cansa. Eu não tenho relógios de bolso nem pulso; nem as paredes. Não sei dizer-lhes hora exata, portanto. Mas de que importam as horas? Basta saber que era noite. Ou madrugada, não dava pra saber. As flores no criado-mudo não sabem dizer o turno.
Ele deve ter pensado que um pouco de suco ajudaria, a julgar pelo barulho do liquidificador. Deve ter escolhido alguma fruta vermelha, com certeza. Ou algo mais puxado pro tom vinho.
Pronto, ele voltou. Ele voltou com dois copos, deixados sobre a mesa. E sentou no sofá à minha frente, e tirou um cigarro do bolso da camisa, e pegou o isqueiro na mesa. Hesitou um pouco e por fim deixou ambos, o cigarro e o isqueiro, na mesa. Eu quis fechar meus olhos e ouvir apenas a sua respiração. Mas ele não deixou. Nem ele nem o piano. Eu queria falar para ele abrir a janela, mas ele também não deixou; nem ele nem o piano. E ficamos assim por alguns minutos, ele me fitando com seus olhos de cor indefinível e seu queixo pontiagudo.
Uma gota caiu no copo mais à esquerda da mesa e eu pus-me de pé. Mas ele não permitiu que eu continuasse. E dessa vez foi só ele. O piano fazia pouco caso. Ele pousou o dedo indicador sobre a boca e fechou-me os olhos. Não faço a menor idéia dos lugares que eu passei, dos lugares por onde ele me conduziu. Tudo era escuro no meu olhar cerrado. Nenhuma luz acesa, nenhum nada.
Sei que ele tirou-me os sapatos, roubou-me a camisa e as meias. Passou a mão pelos meus cabelos, soprou minha nuca e me fez sentir calafrios. Fez-me beber de um copo, fê-lo derramar líqüido em mim. Pelo sabor, era suco. Perguntou-me se faltava açúcar; fiz que não.
Depois de passar os dedos por meu rosto, deu-me um tapa à face e foi-se embora. Como ele previa, eu permaneci sentado por 11 minutos e tentei abrir a porta do quarto. Ele riu alto para que eu ouvisse. Riu mais alto que a minha tia e depois falou-me quatro palavras.
E saiu. Saiu. Tudo ficou calmo-tranqüilo e eu não tinha de me preocupar com necessidades imediatas. Deixou-me suco da fruta e pita. Esqueceu-se da tinta e do papel, mas essas eu já tinha. Esqueceu-se também da janela aberta.
É muito mais do que isso: ele é amigo. Amigo daqueles de verdade, daqueles que a gente até daria um beijo na testa, por mais que odiemos manifestações calorosas de afeto.
Um som de piano ao fundo, uma sala com lareira e sofá verde. Ele no canto, tocando flauta; eu no sofá, contando as estrelinhas que dá pra ver céu através da grande janela. Mesmo de costas, eu consigo ver em seus olhos a inspiração do seu sopro. Não, não é abordagem do cotidiano: não é todo dia que a gente sente num sofá verde.
A qualquer hora ele se cansa. Eu não tenho relógios de bolso nem pulso; nem as paredes. Não sei dizer-lhes hora exata, portanto. Mas de que importam as horas? Basta saber que era noite. Ou madrugada, não dava pra saber. As flores no criado-mudo não sabem dizer o turno.
Ele deve ter pensado que um pouco de suco ajudaria, a julgar pelo barulho do liquidificador. Deve ter escolhido alguma fruta vermelha, com certeza. Ou algo mais puxado pro tom vinho.
Pronto, ele voltou. Ele voltou com dois copos, deixados sobre a mesa. E sentou no sofá à minha frente, e tirou um cigarro do bolso da camisa, e pegou o isqueiro na mesa. Hesitou um pouco e por fim deixou ambos, o cigarro e o isqueiro, na mesa. Eu quis fechar meus olhos e ouvir apenas a sua respiração. Mas ele não deixou. Nem ele nem o piano. Eu queria falar para ele abrir a janela, mas ele também não deixou; nem ele nem o piano. E ficamos assim por alguns minutos, ele me fitando com seus olhos de cor indefinível e seu queixo pontiagudo.
Uma gota caiu no copo mais à esquerda da mesa e eu pus-me de pé. Mas ele não permitiu que eu continuasse. E dessa vez foi só ele. O piano fazia pouco caso. Ele pousou o dedo indicador sobre a boca e fechou-me os olhos. Não faço a menor idéia dos lugares que eu passei, dos lugares por onde ele me conduziu. Tudo era escuro no meu olhar cerrado. Nenhuma luz acesa, nenhum nada.
Sei que ele tirou-me os sapatos, roubou-me a camisa e as meias. Passou a mão pelos meus cabelos, soprou minha nuca e me fez sentir calafrios. Fez-me beber de um copo, fê-lo derramar líqüido em mim. Pelo sabor, era suco. Perguntou-me se faltava açúcar; fiz que não.
Depois de passar os dedos por meu rosto, deu-me um tapa à face e foi-se embora. Como ele previa, eu permaneci sentado por 11 minutos e tentei abrir a porta do quarto. Ele riu alto para que eu ouvisse. Riu mais alto que a minha tia e depois falou-me quatro palavras.
E saiu. Saiu. Tudo ficou calmo-tranqüilo e eu não tinha de me preocupar com necessidades imediatas. Deixou-me suco da fruta e pita. Esqueceu-se da tinta e do papel, mas essas eu já tinha. Esqueceu-se também da janela aberta.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
De um parágrafo só.
Já deviam ser o quê? Dez da noite? Mas para aqueles dois nada disso importava. Nem a hora nem a iluminação precária da rua, meio amarelada. Durante toda a manhã e tarde aquele asfalto havia absorvido calor. E agora ele aconchegava os vagantes da noite. E nenhuma brisa os impediriam de ter uma noite tranqüila. Somente aqueles dois seres falantes que se encontraram na rua lá pelas dez da noite. Amigos de longa data, talvez. Ou apenas uma paquera trivial. Mas parece que aqueles dois sabiam do eco dessas ruas e falaram baixinho, muito baixinho, para que eu não ouvisse daqui de cima. Chamam-me de bisbilhoteiro, voyeur, seja o que for... Mas se eu não observar a vida dos outros, sobre o que mais vou escrever? A minha já não anda assim tão interessante. Os anos se passaram e aprendi a escrever desde cedo. Ganhei meu primeiro caderno foi o quê? Aos sete? Sim, aos sete. Os anos se passaram, as lembranças ficaram... Mas todas esgotadas e desgastadas. Já contei mais de sete as vezes que escrevi sobre o episódio do vaso quebrado. E olha que sete nem é exagero comparado à exploração dos outros temas. Sobre amor já não escrevo mais. Depois que comparei o amor a uma banana, todas as academias literárias e mulheres passaram a me rejeitar. E não que eu não tenha experimentado (muito pelo contrário; minha turma era muito saidinha), mas homozigose não é pra mim. O que me resta então é o campo da observação. E nesses tempos de gripe suína, passar álcool nas mãos.
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