domingo, 24 de fevereiro de 2008

(resgatando textos antigos)

Sem título.

Num copo de café enxerguei-te dizendo aquelas palavras que nunca me abalaram. Mas dessa vez, me fizeram derramar o café por cima da camisa favorita, a branca.
Enraiveci-me, pois, pela primeira vez, lembrei-me de ti depois de dez, dez anos. Você que sempre me fez sofrer.
(Piano)
E numa bela tarde de chuva, tomando a minha mistura de capuccino com chocolate em pó, lembrei da Maria, nossa filha. Amava-a, mas você a matou. Pois sim. Claro que não foi com uma arma ou com uma faca, mas com palavras. O que disseste matou-a por dentro. Hoje ela é uma drogada por tua causa.
(Violino)
Ah, o Mateus morreu. Ficou bêbado e bateu num poste.
(Instrumento qualquer)
Tirou-me todos os filhos, todos os amores. Mereces o pior. E lembre-se: mesmo com tudo que fizestes à mim, choro de saudade quando vejo uma foto nossa. Aquela do vinho, em especial.

(resgatando textos antigos)

carta para um morto.

"...Quando percebi, tinhas me tirado pra dançar. Curti aquele momento como se fosse o último da minha vida. Afinal, não é todo dia que nos encontrávamos.
Aproximadamente um ano depois, tive a impressão de te ver passeando com mulher e filhos. Nessa época também estava casada. Você mexeu comigo.
Dois meses depois, retornei a te encontrar. Mas desta vez nos esbarramos. Acho que não lembrou-se de mim, pois pediu um pedido de desculpas quando se pede desculpas para uma pessoa que nunca se viu na vida. Mas deixei pra lá, até porque não tinha motivos para me reaproximar.
Passaram-se duas décadas. Muito tempo, mas eu ainda me recordava de ti. Percebi então que era você. Era! Separei-me, deixei a alice com minha mãe e busquei notícias sobre você.
Um mês.
Depois de um mês achei no jornal uma foto do seu rosto: macio, barba mal feita, olhos grandes, sombrancelhas, nariz pequeno, boca e suas bochechas. A manchete dizia: "Homem morre na Av. Paulista". O texto dizia que tu havias se jogado contra os carros. Deixara uma carta com uma mulher e que havia pedido a ela para entregar à Maria Rita de Cássia Casamarante. À mim.
Estou indo buscá-la."

(resgatando textos antigos)

anna estava passeando pela rua quando o viu. estava todo ferido, todo ensangüentado. nem pensou direito e o pegou. correu para uma farmácia, mas o farmacêutico disse para ela deixá-lo morrer que seria até melhor pra ele, mas ela disse que não e que ele, o farmacêutico, era um louco babaca.
foi direto para casa, mas antes de chorar pelo acontecido (?), ela foi cuidar dele. chamou-o de joão, já que ele não tinha como dizer o nome. enquanto dava um banho nele e fazia os curativos, ela conversava com joão. ele, já que não era possível, não falava nada.
durante três dias joão ficou na casa dela. quando ficou bom, pegou uma flor e entregou a ela. depois disso, voou janela a fora.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

dia lost in translation...

Hoje quando eu saí da psicóloga, eu fiquei com um pouco de tédio. Até diria um pouco depressivo. Mas não aquele depressivo que não vê sentido na vida, e também não aquele que acha que tudo é ruim. Mas sim aquele que se sente um pouco trsite. Eu até prefiro usar a palavra/termo "sad", mesmo sendo em inglês. Acho que fica mais no sentido que eu quero dar.

No caminho pra casa eu fiquei ouvindo a Cat Power, e duas das músicas mais "sad" do disco: Maybe Not e Names. Tá, eu não fui pra casa. Minha mãe decidiu passar no supermercado.

Nesse tempo do supermercado foi bastante estranho. Sabe aquele tipo de filme bem estilo Lost in Translation? Eu até senti que estava em um. E também estava me sentindo como se estivesse naqueles supermercados norte-americanos, com donas-de-casa meio depressivas e frustradas pensando "Comprar! Comprar!"como se fosse zumbis do capitalismo. Lembrei também daqule vídeo-clipe Fake Plastic Trees do Radiohead...

Foi um dia estranho, meio monótono, meio tedioso. Mas o mais estranho é que eu meio que gostei desse dia. Eu acho que eu tenho um gosto estranho sobre isso, mas eu gosto quando eu fico um pouco assim nesses dias. Tinha dias que, por exemplo, eu tinha acordado de mau humor e queria continuar o resto do dia assim. Claro que eu não conseguia, porque o pessoal lá do colégio não me deixava ficar assim. Involuntariamente eles contavam piadas e eu acabava rindo e fugindo do meu "objetivo do dia". Mas esse dia foi um pouco diferente daqueles, porque ali era um caso de mau humor, não de um certo tédio, e de uma certa tendência ao tédio. Enfim, um dia bem Lost in Translation.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

tudo planejado para o momento.

Lavou as mãos, preparou a faca. Há muito tempo havia planejado aquilo e agora era a hora, enfim.
Pois bem... Andou em direção ao quarto e aos poucos foi chegando perto. Ao soar do alarme do relógio, cravou-lhe no peito a faca, que estava mais afiada que a coisa mais afiada e cortante que pode existir no mundo. Logo após, 7:01, levou o corpo ao toalete. Lentamente foi arrastando o corpo. Não necessitava de pressa, só havia ali ele; e o corpo. Jogou-o pela privada e logo em seguida deu descarga. Viu-o girando, rodopiando para dentro – ou para fora daquele mundo. Lavou as mãos e lambeu a faca. Enfim havia tomado o seu café da manhã.

(espaço)

Após sentir-se rodopiando para dentro – ou para fora daquele mundo -, entrou em sono profundo. Crê ter caído por um corredor gigante colocado estrategicamente em posição vertical. Não, não era um poço e nem um túnel, pois haviam ali portas proporcionalmente arrumadas. Acordou ás 7:02, sentindo uma forte dor no peito. Telefonou para o trabalho e disse que não poderia comparecer aquele dia.

obs.: esse foi um texto que eu fiz em 2007, mais especificamente no dia 25 de agosto, mas não publiquei.

A História de Cadu.

E mais uma vez eu estava lá naquele barzinho conversando com o Cadu. Quer dizer, conversando não, mas fingindo que prestava atenção no que ele falava e pensando por dentro. Estava realmente pensando sobre parar de sair com o Cadu, ele fala bastante e muita besteira. Certo, não sei se é realmente besteira porque não presto atenção. Mas ora, se fosse algo que prestasse eu com toda certeza do mundo estaria interessando.

Enfim, estava pensando em parar com aquelas sessões de fingimento de conversa, falar pro Cadu nunca mais me procurar, quando comecei a reparar nele, no cabelo dele, nos olhos, nos cílios, na sombrancelha, no jeito como ele falava e gesticulava com as mãos, nas suas bochechas quase inexistentes... Enfim, nele. Me dei conta de que o Cadu era uma pessoa normal, como qualquer outra. Mas que não poderia ser outra pessoa que não fosse ele. O destino dele era ser ele, exatamente como ele era. Coisa de maluco mesmo, de gente que não tem o que fazer. E como eu estava de férias do trabalho, aquela virou minha obsessão; observar o Cadu.

Daí sempre que saía com ele, levava um caderninho para fazer anotações. Sempre que ele ia ao toalete, eu anotava alguma coisa. E como ele ia quase que constantemente, eu já tinha quase um livro de informações com menos de duas semanas fazendo aquilo. E daí me bateu a idéia de fazer um livro.

Certo que o Cadu não era um cara muito interessante, até entediante demais, mas com aquelas minhas observações naquele determinado tempo, eu conseguiria fazer com que ele tivesse alguma história, algo que chamasse atenção.

Eu escrevi o livro, com mais ou menos 130 páginas. Ok, ok, eu confesso que acrescentei coisas da minha imaginação e que coletei mais dados durante as nossas “conversas” de terças e quintas-feiras naquele barzinho que tinha até que uma decoração legal e um ambiente propício a alguma história interessante.

Acrescentei tudo isso e muito mais à minha história. A história de Cadu ficou realmente interessante. E interessante que eu até escrevi um prólogo explicando toda aquela situação – coisa de artista mesmo.

No início eu fiquei com receio de mostrar ao Cadu e pedir sua permissão para publicar. Pensei até em publicar sem pedir sua permissão, até porque o Cadu da minha história só se parecia com o Cadu da vida real nas suas características físicas. Mas decidi mostrar. Vai que ele se toca e inicia um processo contra mim? Melhor prevenir. Eu enviei pra casa dele pelo correio (essas coisas de internet não são muito a minha praia pra escrever histórias. Só escrevi a história num laptop porque não tinha papel pautado o suficiente para escrever – não tenho filhos e meus cadernos do colégio estão todos guardados numa caixa cheia de poeira e provavelmente entupidos de desenhos e assuntos de química, história, geografia, biologia, matemática e por aí vai) com uma carta explicando mais uma vez a história toda, mas com um tom mais íntimo, porque, afinal, ele era meu, vamos dizer, “amigo”.

Bom, então é isso. Eu mandei esse pacote com a história pra ele ontem e vou esperar a resposta até a próxima terça.